Hoje, você verá como cada mídia trata a informação e como a comunicação digital influi neste tratamento. O enfoque será nos veículos noticiosos que, por natureza, servem de suporte para o trabalho de todos os comunicadores.

Fato e Notícia

Pergunte para um jornalista o que é notícia e certamente você terá dezenas de respostas. Matéria-prima do trabalho jornalístico, a notícia também é responsável pela caracterização ideológica e comercial de um veículo de comunicação. Um jornal que proclame que faça notícias para toda uma população se diz um jornal plural, sem bandeiras políticas ou ideológicas.

Por princípio, Horkheimer, Adorno e grandes autores da Teoria de Frankfurt afirmam que um meio de comunicação está ligado ideologicamente a uma classe, por isso, é importante desmontar esse mito da imparcialidade, que é uma fórmula para garantir a saúde econômica de um veículo.

Os veículos “vendem” a notícia, não só na forma de pagamento direto (compra de jornal, revista), mas principalmente pela venda de anúncios nos espaços entre essas notícias. Quanto “melhores” as notícias, maior o índice de audiência e, consequentemente, maior a verba publicitária. Todo meio de comunicação está atrás de maiores índices de audiência.

Uma das maneiras de se obter maiores índices é conseguir notícias que sejam mais próximas, mais significativas e apresentem maior novidade para o receptor. Nem todo fato é notícia. Os fatos são os acontecimentos do dia-a-dia e se tornam notícia quando um meio de comunicação os seleciona e os trata de forma a torná-los produtos de consumo do receptor. Outra forma é não segregar o público. Jornais que assumem bandeiras ideológicas geralmente são lidos por quem concorda com essas ideias. Finalmente, é preciso garantir o funcionamento do mecanismo da indústria: prazos mais curtos na elaboração do produto (notícia), com menos erros (política de qualidade) e destaque para assuntos de interesse amplo.

O uso do lead acelera o processo industrial, pois além de ser uma “receita”, facilita a edição dos textos, que podem ser cortados pelo pé, já que a notícia está no topo. Se você quer aprender mais sobre a técnica do lead, clique aqui.

Porém, se todo meio de comunicação é um aparelho ideológico e as técnicas do jornalismo “informativo” tentar disfarçar essa ideologia, é preciso recorrer a análises mais profundas para reconhecer a ideologia na comunicação jornalística.

A análise de Pierre Bourdieu

Considerado um dos maiores sociólogos de língua francesa das últimas décadas, Pierre Bourdieu é um dos mais importantes pensadores do século 20. Sua produção intelectual, desde a década de 1960, estende-se por uma extensa variedade de objetos e temas de estudo. Embora contemporâneo, é tão respeitado quanto um clássico. Crítico mordaz dos mecanismos de reprodução das desigualdades sociais, Bourdieu construiu um importante referencial no campo das ciências humanas.

Pauta consensual – Para Bourdieu, a informação que chega ao receptor é homogeneizada, pois todos os veículos de comunicação sofrem as mesmas restrições, são orientados pelas mesmas pesquisas de opinião e audiência e têm os mesmos anunciantes. Os jornalistas se informam com outros jornalistas. O que é notícia na TV deve, quase obrigatoriamente, ser notícia no rádio, no jornal, no semanário, na Internet, pois um veículo não pode deixar de noticiar o que outro noticiou.

Assuntos-ônibus – De acordo com Bourdieu, são assuntos que não chocam a ninguém, mas que interessam a todo mundo. Não envolvem disputa, não dividem, não tocam em nada de importante e que formam consenso. São as chamadas notícias de variedades e pode-se incluir o esporte entre elas. Para Bourdieu, se o tempo (ou o espaço), tão vitais no jornalismo, são preenchidos com temas tão vazios, é porque estas futilidades ocultam “coisas preciosas”.

Teóricos portugueses da Comunicação

Os estudos sobre o porquê de as notícias serem como são se desenvolveu muito em Portugal e também no sul do Brasil, especialmente Santa Catarina e Rio Grande do Sul, cujas editoras publicaram livros de Nelson Traquina e Jorge Pedro Souza que, ao lado de Mauro Wolf, são exemplos da qualidade da análise portuguesa.

Nelson Traquina reuniu as teorias da notícia e apresenta uma distinção entre as que caracterizam o jornalismo como espelho da realidade e as que entendem que o jornalismo constrói as notícias. Entre essas, pode-se destacar: gatekeeper, newsmaking, organizacional e ideológica.

A teoria do gatekeeper foi a primeira que diagnosticou os filtros na comunicação. Ou seja, que entre os fatos e os leitores/ouvintes/telespectadores há filtros que selecionam o que deve ser comunicado. Por essa teoria, são os jornalistas, por critérios subjetivos e arbitrários, que selecionam o que é notícia.

A teoria organizacional pressupõe que os filtros não são feitos só pelos jornalistas, mas principalmente pelas normas da empresa jornalística: manuais de redação e rotinas administrativas formatam o conteúdo dos meios de comunicação. Já pela teoria ideológica, as notícias seriam resultado de interesses políticos e ideológicos dos proprietários dos meios de comunicação.

O newsmaking entende que as notícias são resultado das rotinas organizacionais criadas pelos jornalistas para dar conta dos imprevistos diários de uma redação. O processo de produção da notícia é planejado como uma rotina industrial. Os veículos de informação devem cumprir algumas tarefas neste processo:

  • Reconhecer entre os fatos aqueles que podem ser notícia (seleção).
  • Elaborar formas de relatar os assuntos (abordagem/ angulação).
  • Organizar, temporal e espacialmente, o trabalho, para que os acontecimentos noticiáveis possam ser elaborados de maneira organizada.

Os critérios utilizados para a seleção, organização e elaboração dos fatos são chamados de valor-notícia.

Comunicação Digital

A prensa de Gutenberg gerou tantas possibilidades de difusão, propagação e fixação de conhecimentos que, mais de cinco séculos depois, seus efeitos ainda são estudados. Da mesma forma, aconteceu com o invento do telefone, do rádio e da televisão. Ao fazer uma análise da linguagem de cada uma dessas mídias, chega-se à conclusão de que cada novo meio que se estabelece como meio de comunicação de massa, altera profundamente o modo de produção da comunicação dos meios anteriores e assimila as inovações de cada um deles.

Pense como eram as informações do jornal antes e depois do rádio. A agilidade do rádio tirou do jornal o ineditismo. Os veículos impressos foram obrigados a dar mais detalhes do assunto. Com a chegada da TV, o rádio perdeu para a notícia com imagem. Não bastava ao rádio divulgar o fato, mas divulgar com rapidez. Os repórteres ganharam as ruas com equipamentos móveis para ser os primeiros a chegar e transmitir o acontecimento. Ao jornal mais uma vez coube o papel de apurar ainda mais o fato, para no outro dia trazer detalhes que os veículos eletrônicos não tiveram condições de transmitir, pelo fator tempo. Não demorou também para que o jornal assimilasse o uso de fotos coloridas para concorrer com o carnaval de imagens proporcionado pela televisão.

A chegada da Internet não foi apenas uma fusão das mídias. A comunicação digital pode muito mais do que transmitir, juntos, o texto na tela, vídeos e áudios. Graças ao hipertexto, três novas características foram incorporadas à comunicação:

Interação do público com o meio. A interatividade não acontece apenas no envio de e-mails com comentários. O público pode escolher quais assuntos e em qual ordem serão “consumidos”. Como não há um começo, meio e fim, o internauta decide e monta sua própria “leitura”. A este processo dá-se o nome de não-linearidade.

Uso de links. Se o conteúdo não couber no espaço definido, basta transformar o conteúdo extra num hipertexto, que pode ser acessado pelo clique do mouse na palavra, expressão ou imagem hiperlincada. É o fim do limite de espaço.

Agilidade de atualização. Uma informação foi ao ar e é preciso corrigi-la. Basta acessar o código, e em poucos segundos cores, layout e textos são modificados, fotos, vídeos e áudios, inseridos. Isto permite coberturas ágeis quase em “tempo real”.

Essas novas características revolucionaram os meios de comunicação. A não-linearidade e a interatividade obrigaram o rádio, a TV e os meios impressos a proporcionar soluções para interação, mínima que seja. O fim do espaço proporcionado pelo hipertexto levou os meios impressos a se especializar ainda mais na apuração, da mesma forma que o rádio teve de ser ainda mais ágil, com coberturas com helicópteros, e a TV assimilou recursos gráficos para explicar os assuntos. Por fim, a agilidade de atualização é impossível nos outros meios. Depois que os impressos vão para os leitores, depois que os programas vão ao ar, não há como corrigir o que já está feito. Com a comunicação digital, um erro detectado ou uma nova informação são colocados imediatamente, muitas vezes, sem que o internauta perceba.

A democratização do acesso à Internet ainda pode ser lenta, mas aos poucos vai tomando conta dos brasileiros. Basta ver o que aconteceu com os celulares. Outros setores da sociedade estão se adaptando à era digital. Esta aula que você faz agora é criada em hipertexto. Graças a essa tecnologia você pode acessar conteúdos extras que não caberiam numa apostila tradicional e, principalmente, organizar seus estudos a partir do local de sua escolha. É uma revolução, sem dúvida.

Todas essas características se aplicam também à TV Digital. Portanto, ao se informar sobre o assunto, tome cuidado para não cair na simples discussão sobre qualidade de imagem. A TV Digital é bem mais do que isso. Ao mesmo tempo em que se assiste a um programa, pode-se ler mais sobre algum tema, adquirir produtos e interagir com os produtos, tudo com o controle remoto.

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